O milagre do cabeçote
por Magda Mattos
Humor, sorte e o sobrenatural

Os causos de caminhoneiros são tão famosos
como os de pescadores. Quase todos contêm muito
humor, sorte ou uma pitada de sobrenatural. O causo de
Pedro Joaquim de Moraes Filho, 69 anos e com mais de 30
anos de estrada, não poderia ser diferente.
Pedro iniciou sua vida sobre rodas logo aos 18 anos. Desde
então, teve como companheira de viagem e de vida
carretas de 14 metros de comprimento. Alfa Romeu e Scania
foram os nomes das amantes que o acompanharam por todos
os Estados do Brasil e pela Argentina, Uruguai, Paraguai
e Chile.
O causo de Pedro aconteceu em 1965 quando transportava
gasolina para Salvador e o cabeçote do caminhão
quebrou num lugar sem socorro. E o pior é que só encontraria
alguma oficina capacitada em Feira de Santana, a 380 quilômetros.
Mas Pedro não titubeou. Arregaçou as mangas,
tirou o cabeçote e pôs os pés na estrada.
Pegou várias caronas e 8 horas depois chegou na
tal oficina. Arrumou o cabeçote e voltou do mesmo
jeito que foi: de carona. Novamente no caminhão,
colocou o cabeçote no lugar e pôs o motor
para trabalhar e descobriu que ele não estava funcionando
bem. O que fazer depois de tanto trabalho? Como criatividade
e experiência fazem parte da vida do caminhoneiro,
Pedro tirou dois microinjetores do carro e deu partida
jogando água pra todo lado. E decidiu viajar assim
mesmo. Rodava o máximo que podia sem parar, e quando
parava soltava a água para não acumular
sobre o pistão. E pela manhã, quando colocava
o caminhão em movimento, enchia-o novamente de água.
E assim foi nos 2.400 quilômetros que tinha de percorrer
na volta para São Paulo.
Como era Dia de Finados, resolveu acender uma vela para
sua falecida mãe para pedir proteção
no trajeto com o caminhão problemático.
Na procura por uma vela comum, achou apenas um chumaço
de pequenas velas coloridas de aniversário, afinal
sua santa mãezinha não iria reclamar. O
que valia era a intenção!
Sua idéia era chegar à cidade de Milagres,
que possuía uma cruz branca de dois metros de altura,
para acender a vela. Quando avistou a cruz, já era
final de uma tarde quente, sem nenhum ventinho para amenizar
o terrível calor. Chegando no local, viu uma galinha
preta com velas pretas e vermelhas no pé da cruz.
Logo foi chutando a penosa e todas as velas, dizendo “Xô pra
lá, que aqui é coisa de Deus” e ajoelhou-se
para acender o pequeno chumaço de velas de aniversário.
Mas assim que se ajoelhou, uma tremenda ventania quase
o derrubou e de jeito nenhum conseguiu riscar o fósforo. “Era
vento daqui, vento de lá, que protestei. Quem é que
está enchendo meu saco?”, disse Pedro na
hora. Mas de nada adiantou. Ele teve que pegar um papelão,
deitar sob o caminhão e fazer uma cabana para poder
cumprir sua missão. Pedro ficou instigado pelo
acontecido. Afinal, segundo ele, foram as velas azuis
e cor de rosa e as orações que o trouxeram
de volta para casa em segurança.