Um cantor sem fronteiras
Ele
foi roqueiro,
cantou baladas e se consagrou
como artista sertanejo
A
viagem estava tranqüila e tinha tudo para ser como as outras
tantas que Sérgio Reis e sua equipe estão acostumados
a fazer regularmente pelas rodovias brasileiras. Afinal são
inúmeros shows todos os meses. Mas ao chegar próximo à serra
em Santa Catarina, pela BR 116, o motorista alertou que havia um
caminhão capotado ao lado da pista. Sérgio Reis e
sua equipe não hesitaram: improvisaram uma maca com bambus,
formaram um corredor humano da rodovia até o local do acidente
e calmamente salvaram os dois ocupantes do possante acidentado. “Como
estava frio, fizemos café para as vítimas e improvisei
um canudo de bambu para que o motorista e seu companheiro pudessem
beber e se aquecer. Felizmente os dois se salvaram”, recorda.
Ao contar essa história, Sérjão – como é carinhosamente
chamado pelos amigos e pelos caminhoneiros – demonstra todo
o respeito que tem por esta categoria e pelo cidadão. Aliás,
essa dedicação é reconhecida pelos motoristas
que o elegeram, por meio de uma pesquisa, o maior ídolo
do País em 2005, à frente de ilustres brasileiros
como Ayrton Senna, Roberto Carlos, Daniel, Pelé, Ronaldinho,
Zezé Di Camargo e Luciano e Sula Miranda. “Trato os
caminhoneiros – e todos os cidadãos – com respeito,
educação, justiça e carinho. E procurei até hoje
sempre ser correto nas minhas ações”, ressalta
Sérjão.
A relação com os caminhoneiros vai além. Desde
1991 Sérgio Reis apresenta um programa de rádio dedicado à categoria,
o “Siga Bem Caminhoneiro”. A programação é totalmente
voltada para o bem-estar dos motoristas. Sérjão defende
os direitos dos caminhoneiros, informa sobre as condições
das rodovias, faz entrevistas e orienta a categoria para denunciar
casos de prostituição e exploração
infantil. “O programa é retransmitido para mais de
200 emissoras espalhadas por todo território nacional”,
diz. O sucesso não é por acaso. Sérjão é um
profundo conhecedor da realidade dos motoristas porque também
já foi proprietário
de duas transportadoras.
Hoje, aos 67 anos, Sérjão mantém o bom humor
e a simplicidade que sempre pautaram a sua vida, mesmo quando fala
sobre o AVC – Acidente Vascular Cerebral – que teve
durante um vôo de São Paulo para Belo Horizonte, em
2002. Os exames detectaram um coágulo e ele foi submetido
a uma cirurgia. “Apesar de delicada, a operação
foi um sucesso e não deixou nenhuma sequela”, comenta,
sorrindo. Hoje, nas raras horas vagas, ele procura ficar em casa,
no mesmo bairro em que nasceu, com a esposa Ângela – que
também canta em sua banda – e seus cães de
estimação. Claro que a viola, o berrante e a cuia
com chimarrão sempre estão
por perto.
Rock, balada e sertanejo

O sobrenome de batismo é italiano, Bavini. Mas a paixão
pelo rock e, principalmente, pelo ídolo Elvis Presley
era (e é) tamanha que ele resolveu adotar no início
da carreira o pseudônimo de Johnny Jonson. Naquela época
ele ajudava a família cantando baladas e rock (em inglês)
nos bares da vida. Sérgio Reis confessa que adorava imitar
artistas consagrados como Cauby Peixoto e cantar os sucessos
de Pepino de Capri, Lucho Gatica, Trio Los Panchos e Sérgio
Endrigo, os ídolos da época.
Em 1958, “Johnny” conheceu o radialista Enzo de Almeida
Passos. Enzo o apresentou aos executivos da gravadora Chantecler,
que estavam à procura de um cantor de boleros. O único
problema é que o pseudônimo escolhido por Sérgio
não combinava com o estilo musical. Então, por
sugestão do produtor Palmeira e do coordenador da área
sertaneja Teddy Vieira, ele adotou o sobrenome da mãe, “Reis”.
Nascia assim o cantor Sérgio Reis.
Hoje, Sérjão ainda se emociona quando fala do bolero “Enganadora” e
da balada “Será”, seus primeiros sucessos,
gravados em 1961. No ano seguinte ele gravou o rock “Lana” e
a música “Porque sou bobo assim”. Depois vieram
outros tantos como “Coração de Papel”,
que definitivamente lhe abriu as portas do mundo artístico.
Depois do sucesso da Jovem Guarda, Sério Reis resolveu
aderir à influência musical de seu pai e migrou
para o universo sertanejo. A dupla Tonico e Tinoco foi a que
mais influenciou seu trabalho musical – ele gravou vários
clássicos caipiras como o “Menino da Gaita”, “Menino
da Porteira”, “Eu sei que vai chegar a hora” e
tantos outros.
O sucesso foi tão grande, que pela primeira vez no Brasil
a música sertaneja foi tocada nas rádios FM. Sérjão
participou de programas de televisão, conquistou prêmios
como o “Globo de Ouro” e estreou no cinema interpretando
um boiadeiro no filme “O Menino da Porteira”. “O
filme foi um sucesso e bateu recordes de bilheteria”, lembra
Sérjão. Ainda no final da década de 1970,
ele gravou outro filme, “Mágoa de Boiadeiro”.
Depois do cinema, Sérgio Reis se aventurou na telinha
e estreou em novelas. Talvez a mais famosa tenha sido Pantanal,
exibida pela extinta TV Manchete, quando interpretou um violeiro
e contracenou com seu amigo Almir Sater.