Surpresa de Natal
por Magda Mattos
Veja como o Boneco de Lata
se livrou dos assaltantes
Aos 41 anos de idade, Carlos Eustáquio de Lima,
que também é conhecido por Boneco de Lata,
ainda se emociona ao lembrar do seu velho caminhão
Toco. Carlinhos, como é chamado pelos amigos, começou
na boleia em 1990, puxando areia e tijolos na cidade
de Bezerros, interior de Pernambuco. Três anos depois
de cruzar todos os dias sua cidade natal, adquiriu um
possante 1113L, ano 1972, e caiu na estrada. Resolveu
finalmente seguir os passos dos outros seis irmãos
mais velhos que já eram caminhoneiros. “Somos
em 23 irmãos, mas 12 morreram, coisas da vida!
E dos meus 39 sobrinhos, muitos também resolveram
viver na estrada”, observa o camionista.
No início da carreira optou por puxar carga de
Recife para Salvador, Fortaleza e Belém do Pará,
ou seja, trabalhar só na região Nordeste.
Carlinhos confessa que algumas vezes cruzava até a
região Sudeste, mas era raro, pois tinha medo de
assaltos. Porém, foi durante uma viagem na época
de Natal entre Mossoró e Recife que ele passou
o maior susto da sua vida.
Era final de ano e ele estava cansado. Com receio de dormir
no volante, no meio da viagem resolveu dar um cochilo
no posto fiscal de Açu, ainda no Rio Grande do
Norte. Acordou cerca de duas horas depois. Como estava
tarde, ligou o possante e seguiu viagem. No entroncamento
entre Mossoró, Caicó e Natal, notou que
estava sendo perseguido por um carro. “Acredito
que os assaltantes pensaram que eu estava carregando macarrão,
mas na verdade eu transportava sal”.
Carlinhos sabia que precisava despistar o grupo, pois
estava se aproximando do local mais vulnerável
da viagem, a serra da cidade de São Rafael. “Esse
trecho é perigoso porque andamos em velocidade
muito lenta e os assaltantes pulam no caminhão
para fazer a festa. Como não tinha alternativa,
me embalei pelo espírito natalino e comecei a rezar
e pedir proteção”, lembra Carlinhos.
Nesse momento, os assaltantes já tinham ultrapassado
o motorista e aguardavam em um monte localizado próximo à rodovia
para pular em cima do caminhão. Ainda emocionado,
Carlinhos lembra que de repente o possante começou
a andar rápido como se estivesse em uma descida. “Passei ‘voando’ pelos
assaltantes e eles não conseguiram pular na carroceria.
Deixei todos de boca aberta. Não me pergunte como
isso aconteceu, só sei que fui embora e eles desistiram
de me assaltar. Só pode ser um milagre de Natal”,
lembra Carlinhos.
Há cinco anos Carlinhos deixou a boleia
e resolveu entrar no ramo de estacionamento. Mas confessa
que em breve vai comprar um 1618, da Mercedes ou um 112
H5, da Scania. “Mesmo com alguns contratempos, sinto
muita falta da boleia. Em breve voltarei para a
estrada, com certeza! Quem sabe não seja outro
milagre de Natal?”
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