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Direto no volante, perigo à vista

Não existe uma lei para limitar o tempo na direção, mas o caminhoneiro precisa se cuidar para chegar bem ao fim das viagens

Às 5h30 da manhã de um dia de maio do ano passado, no km 188 da rodovia Anhanguera, um caminhão carregado de frutas e verduras bateu violentamente na traseira de outro que transportava solvente. Com o impacto, ocorreu um grande incêndio. Apesar da cena impressionante, por sorte, ninguém ficou ferido. O caminhoneiro que provocou o acidente confessou: “Cochilei, não deu para parar”.

Quem vive no trecho, conhece muitos desses casos. Uns já cochilaram na direção, outros ouviram de algum companheiro uma história assim. E todos sabem por que os cochilos acontecem. Muitas horas ao volante e a falta de repouso levam ao cansaço e ao risco.

Por isso, está se tentando limitar o tempo máximo que o caminhoneiro pode ficar ao volante sem parar.

 
O que acontece com quem dirige muito tempo sem parar:
* Depois de 4 horas ao volante, o motorista tem pequenas falhas de atenção.
* Depois de 8 horas, a atenção diminui muito, dobrando os riscos de acidente.
* As vibrações do veículo podem causar varizes e embolias.
* Perdas auditivas por causa dos ruídos do veículo.
* Fadiga muscular e mental.
* O balanço do caminhão, o ruído constante do motor e o movimento de vaivém do corpo e da cabeça, causam uma sensação de entorpecimento.

 

Tentativa de Mudar

Como a mistura de cansaço e acidentes se repete muito, foi proposta uma mudança no Código Brasileiro de Trânsito. A nova regra defendia que para cada 4 horas dirigindo em rodovias, os caminhoneiros deveriam parar pelo menos meia hora para descanso.

A mudança foi aprovada pelos deputados e senadores, mas não está valendo, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou a novidade, dizendo que ela tem falhas. Uma delas é a de não exigir o uso do tacógrafo.

Essa lei estava em discussão desde 1996. Quando foi apresentada, exigia uma hora de descanso a cada 4 horas no volante e obrigava também a uma parada de 12 horas ininterruptas. Tudo controlado pelo tacógrafo. Com o tempo, a proposta foi sendo modificada.

No ano passado, o senador gaúcho Paulo Paim propôs no Senado um Estatuto do Motorista Profissional, que também trata da questão. Não como uma lei de trânsito, mas trabalhista.

O que os caminhoneiros acham

Com seu Mercedez-Bens Atego 2425 bitruck, o autônomo Alberto Lorenzini roda de 8 a 10 horas por dia e sempre para antes das 10h da noite. “Eu paro umas 3 ou 4 vezes, em média, por meia hora”. Ele diz que vê muita gente dirigindo direto. E acha que uma lei limitando o tempo no volante pode ajudar o caminhoneiro.

Ronivaldo Divino dos Santos, mineiro de Uberlândia, há 35 anos na estrada, tem um Mercedes-Benz 1113. No Terminal Fernão Dias, de São Paulo, esperava uma carga para voltar à sua cidade: “Eu vou daqui até Uberlândia em umas 12 horas, andando bem. Paro a cada 100 quilômetros por uns 20 a 30 minutos”. Ronivaldo diz que “tem gente que faz em 7 horas até Uberlândia”, sem parar. “Para fazer isso, muitos usam ‘rebite’, mas quando posso, aconselho eles a não usarem”. Ele também apoia a lei.

Fantasmas e apagão

De cada dez acidentes, seis são causados por cansaço e sono, informa o médico Dirceu Rodrigues Alves Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. Pesquisas indicam que mais da metade dos motoristas cochilam ao volante.

Alguns motoristas profissionais usam drogas para driblar o cansaço. Mas o doutor Dirceu adverte: “as anfetaminas conhecidas como rebites não dão aviso do fim do efeito e podem levar a um apagão”. Além disso, perturbam a visão e, às vezes, o motorista vê imagens duplicadas e “fantasmas”, confundido a sua percepção do perigo.

Para o médico, o ideal é que o motorista não trabalhe mais de 36 horas semanais. E por dia, no máximo 6 horas ao volante com um descanso a cada 2 horas. Por isso, acredita que a nova lei não muda muita coisa. Na realidade, só manteria a situação atual. Ele diz: “A nova regra permitiria que o caminhoneiro continuasse dirigindo 13 horas por dia, o que, na prática, já acontece”.

Dicas para amenizar os efeitos:

Parar a cada duas horas de estrada (em locais seguros).
Fazer caminhadas de 5 minutos– se o local tiver pouco espaço, pode andar em volta do caminhão.
Fazer alongamento de braços e pernas, por 5 minutos.
Evitar refeições pesadas, que em geral causam sono.
agosto/setembro 2009
 






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