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Marcas da estrada
As bolsas da Maria Buzina carregam lembranças
Gabi Gonçalves conta que, quando era criança, via cicatrizes no braço de seu avô caminhoneiro Manoel da Silva Pereira Júnior e não sabia o que tinha acontecido com ele. Muitos anos depois, porém, soube da história. Nos anos 1960 não havia muitos postos nas estradas e, de vez em quando, Manoel levava galões de gasolina na carroceria para abastecer o pesado. Até que um acidente fez o combustível derramar. Ele foi ver o que tinha acontecido e sem querer alguém acendeu um cigarro. Logo houve um incêndio que se alastrou atingindo Manoel.
Esse acidente marcou a todos. E ela conta como a sua família saiu do ramo de transporte de carga. Em 1970 o avô e o bisavô, que também era caminhoneiro, foram para Portugal. Enquanto isso, o pai dela, José Manoel, ficou trabalhando com os pesados. Um dia, quando transitava por uma estrada de Minas, militares obrigaram os caminhões a estacionar no acostamento, deixando livre o acesso para os veículos do Exército. Por conta disso, ele teve que passar dias parado, impedido de seguir viagem. José Manoel ficou revoltado e reagiu vendendo os caminhões da família. Quando o pai e o avô dele voltaram de viagem, levaram um susto. "Meu pai quase levou uma surra. Mas a minha bisavó protegeu ele, pois achava que ser caminhoneiro era perigoso e não queria que meu pai nem ninguém continuasse na profissão", conta Gabi.
Bolsas de lona |
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Gabi Gonçalves pinta sobre a lona que já percorreu muita estrada |
Essas antigas histórias e as recordações de menina da oficina onde o avô consertava seu caminhão influenciaram o trabalho de Gabi. Formada em Artes Plásticas, passou a criar peças nas quais procurou mostrar a importância da vida dos caminhoneiros. "Eles trabalham para todos nós, carregando mercadorias, mas a política econômica e de estrutura não os favorece. Pagam impostos como todos nós, mas encontram somente buracos nas estradas, que são seu ambiente de trabalho", diz. "E eles passam muitos dias solitários sem suas famílias".
 As bolsas, carteiras e cintos da Maria Buzina são feitos com lonas de caminhão usadas. "Os remendos, buracos e manchas das lonas são marcas que levam histórias", explica Gabi. Ela visita postos da BR-040, nas proximidades de Juiz de Fora, sua cidade, para obter as lonas. "Conversamos com os caminhoneiros e queremos saber de suas histórias. As lonas carregam suas experiências", conta Gabi. Para serem usadas, as lonas são lavadas a mão. "Sai a sujeira e as marcas de uso ficam mais evidentes. Depois, são pintadas", explica.
Gabi diz que às vezes as pessoas a chamam de Maria Buzina. Ela escolheu esse nome para a marca porque "lembra a felicidade de um caminhoneiro, que buzina porque está chegando de volta em casa".
Serviço: Maria Buzina - www.mariabuzina.com.br
fevereiro/março
2010 |
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