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À beira do caminho
Daquela história, ficou uma lembrança triste

Um antigo caminhoneiro, hoje aposentado, lembra de algumas histórias interessantes. Antônio Ribeiro, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, viajou muito pela região. Teve vários pesados, mas seu caminhão do coração era um Mercedes 1113 azul. O casamento entre eles durou 20 anos, até que Antônio parou. Mas, como quase todo caminhoneiro, ainda tem saudades dos velhos tempos.
Trabalhava para uma empresa atacadista e visitava pequenas cidades do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. Geralmente nas estradas de terra do interior gostava de dar carona para uma prosa. Sempre via pessoas que ficavam muitas horas na frente de um bar, num posto de gasolina ou num cruzamento esperando um transporte. Quando essa história aconteceu, há mais de 30 anos, pedir e dar carona era um hábito comum. Naquela época tinha menos violência e as pessoas confiavam mais umas nas outras.
Certa vez, Antônio tinha que fazer uma entrega em um armazém de um vilarejo no interior do Mato Grosso do Sul. Ele já tinha circulado por aquela pequena estrada de terra e não encontrava o lugar, que nem lembra mais o nome. Quando encontrava alguém à beira da estradinha, pedia informação e cada um indicava um caminho. Mas um velho sentado num banquinho de madeira na frente de um boteco, disse que sabia. “Eu vou para lá. O senhor me leva que eu ensino o caminho”, disse.
Antônio pediu para ele entrar. O velho não queria conversa. Dizia apenas “entra aqui” e “vira ali” e apontava o caminho. Até que mostrou um pequeno armazém.
Antônio descarregou as caixas de mercadoria, perguntou como pegar o asfalto de volta e entrou no caminhão. Aí viu que o seu “companheiro” de viagem continuava lá, sentado no banco. E perguntou: “O senhor não disse que ia ficar aqui?” O homem balançou a cabeça e disse: “Eu vou mais adiante, no seu caminho mesmo”. “Mas até onde?”, perguntou o caminhoneiro. “Mais adiante, pra lá... no próximo povoado”, falou meio bravo.
O caminhoneiro achou que podia dar mais um pouco de carona para o homem. Afinal, tinha ajudado ele. Era um pouco atrapalhado, parecia um pouco alto de bebida, mas inofensivo. Se ele tentasse alguma coisa, não seria difícil se defender. O motorista tentava sempre puxar uma prosa, mas o velho não falava nada. Chegaram a um vilarejo e o caminhoneiro parou para o homem descer. “Já chegou”. O carona então falou: “Não é aqui não. É no outro”. “Mas o senhor não disse que era esse?” “Mas não é, me enganei”.
Antônio perguntou de novo onde ele ia. E ouviu como resposta: “Até o próximo povoado.”. “Fica longe?” “Não”. Depois de quase uma hora de viagem, havia outro vilarejo. Antonio parou e falou para o homem que ele tinha chegado. O carona, porém, repetiu: “Não é aqui”. Antônio disse: “Como não é aqui? É aqui, sim”. “Não é não”, retrucou o outro. “Se não é, não tem importância porque você vai descer aqui”, disse já nervoso. “Não vou descer não”. “Vai sim”. “Não. Eu vou seguir com você”, disse o senhor. “Não vai não!”
O caminhoneiro saiu, deu a volta e abriu a porta do passageiro. Pediu para o homem sair. Mas nada. “Eu vou ter que tirar você por bem ou por mal, então é melhor você descer logo daí”. E nada. Ele não saía do caminhão de jeito nenhum, se agarrava onde podia e os dois tiveram que forçar. Um rapaz se aproximou e Antonio pediu ajuda. Só depois de muita luta, conseguiram tirar o homem do caminhão.
Antônio arrancou com o caminhão. “Pelo espelho vi o homem sentado na beira da estrada com as mãos no rosto. Fiquei com pena. Acho que estava chorando. Até hoje lembro dessa história com tristeza”.
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fevereiro/março
2010
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