Benjamin - 81 anos de idade e 63 de estrada
A história de um herói da boleia, contada por seu filho
Benjamin Teixeira dos Santos
Caminhoneiro há mais de 60 anos na estrada. |
Nelson Teixeira Santos, orgulhoso de seu pai, enviou para a ChAPA a história de Benjamin Teixeira dos Santos, caminhoneiro há mais de 60 anos na estrada. Veja como começou essa carreira, que certamente é uma das mais longas entre os motoristas profissionais do transporte de carga.
"O ano era 1947. Eram muitas as idas e vindas diárias na mata de onde se retirava a madeira que servia de combustível para as marias-fumaça e era depositada no pátio da estação ferroviária de Porto Amazonas, no Paraná. E Benjamin Teixeira, um jovem nascido na vizinha cidade de Palmeira em 1929, condutor de carro de bois, sonhava. Sonhava com o dia em que poderia pilotar aquela máquina maravilhosa da qual ele era apenas um dos ajudantes – um caminhão GMC.
Mas não demorou muito. Um belo dia, o motorista, que era proprietário do caminhão e também patrão, percebendo o interesse daquele jovem pela máquina, deu a ele a tão desejada oportunidade de dirigir o bruto.
Pronto. Estava selada uma relação com caminhões que já dura mais de 60 anos. Exatos 63 anos vividos na boleia e muita história para contar.
Soldado e caminhoneiro
Embora não tenha sido aceito para fazer o serviço militar, devido a uma pequena fratura no pé, por algum tempo prestou serviços ao Exército na cidade de Lapa, no Paraná. Foi motorista e mecânico no quartel, até que — por mais incrível que pareça — aparecesse algum recruta sem nenhum defeito físico para assumir o seu lugar. Sua carteira de reservista é de 1949. E sua primeira habilitação é de 1950.
Depois de ser dispensado do serviço militar, Benjamin voltou para Porto Amazonas. Agora como motorista habilitado, ainda por algum tempo continuou transportando lenha para a Rede de Viação Paraná-Santa Catarina, que naquela época fazia parte da antiga RFFSA – Rede Ferroviária Federal S/A.
Até 1951, quando resolveu se mudar para Curitiba. Nessa época ele já pilotava um International da Companhia Telefônica Nacional no Paraná e Santa Catarina. Em 1952 casou-se com Ludomina, que embora também tenha nascido em Palmeira, ele conheceu em Porto Amazonas. Dessa feliz união nasceram Nelson, Nilton, Nilson, Neusa e a prima adotiva Marilete.
A troca da Companhia Telefônica Nacional pela empresa de transporte de cargas Rodofiel, empresa que marcaria sua vida para sempre, aconteceu em 1953. A partir daí, o número de caminhões que passaram pela sua mão é quase incontável. GMCs, Fords, entre os quais os F-6 e F-8, FNMs e até um pequeno caminhão japonês, usado para fazer entregas e coletas, da marca Nissan. Desse caminhão Benjamin lembra que quando exigido, o motor uivava.
Fio de bigode
O Scania-Vabis que Benjamin dirigiu |
A habilidade do caminhoneiro era reconhecida pelos proprietários da transportadora. E a confiança em Benjamin era tanta que, nessa época em que os motores dos caminhões precisavam ser amaciados, ele passou a ser o “amaciador” oficial da empresa. Além disso, tinha a função de indicar qual motorista receberia o veículo depois que ele amaciava o motor.
Benjamin teve diversas paixões e uma das mais fortes foi por um Scania-Vabis. Não sabemos o ano de fabricação e, até onde consegui apurar, era um daqueles caminhões que vinham desmontados da Suécia e eram montados em São Paulo. O que mais impressionava nesses brutos era a sua enorme força e o ronco do motor. O som da sua marcha lenta é inesquecível.
Em 1960, a fundação de Brasília deu a Benjamin Teixeira a oportunidade de dar um salto na profissão e, ao mesmo tempo, fez com que ele mudasse sua paixão para os caminhões da Mercedes-Benz. A Rodofiel, transportadora onde trabalhava, comprou dez Mercedes LP 321, os famosos “caras chatas”, zero quilômetro para serem usados na transferência da capital federal, do Rio de Janeiro para Brasília.
Um ano depois, quando os trabalhos de mudança da capital terminaram, os Mercedes ficaram ociosos. Foi então que os proprietários da empresa resolveram premiar os dez melhores motoristas. Para cada um deles vendeu um dos Mercedes. O pagamento foi sendo descontado das viagens que os caminhoneiros continuariam a fazer pela empresa até que toda dívida estivesse paga. Esse não foi um negócio da China. Melhor, foi um negócio de pai para filho. E tudo combinado no fio de bigode. Nada de assinatura de contrato. Nada. A palavra tinha um valor incalculável.
Foto: arquivo pessoal |
Paixão pelo Mercedes
Depois da dívida paga, esse Mercedes foi negociado por outro, também cara chata, um 1959 azul no toco e depois trucado. Benjamin foi fiel a esse caminhão por 30 longos anos. E não somente à marca Mercedes-Benz, mas também à empresa que permitiu que ele se tornasse um profissional autônomo. Não mais a Rodofiel, mas sua sucessora, a Transportadora Guairacá.
A aposentadoria chegou em 1980 e encontrou Benjamin ainda com seu velho Mercedes 1959, agora sem o terceiro eixo. Por mais dez anos ele manteve o cara chata, até que os proprietários da Guairacá chegaram com um novo negócio de pai para filho. Venderam a ele outro caminhão, nas mesmas condições do negócio feito em 1961. Desta vez era um Mercedes-Benz 1113, ano 1978. A gratidão e a fidelidade aos empresários da Guairacá eram tantas que, mesmo depois de Benjamin terminar de pagar a dívida, manteve o 1113 do mesmo jeito — com a marca e as cores da Guairacá.
Quando chegou no final dos anos 1990, Benjamin pensou em parar. Tinha chegado a hora de se aposentar e o 1113 foi vendido. Mas o apego aos caminhões e à estrada era tão grande, que falou mais alto. A decisão de ficar em casa descansando foi mais uma vez adiada.
Desde 1998, quem trafega nas ruas de Curitiba e pelas estradas do Paraná e de Santa Catarina talvez tenha cruzado com um Mercedes-Benz 608, ano 1973, com carroceria estendida — mais de 7 metros de comprimento, adaptada para transportar sanitários químicos. Na boleia está aquele jovem sonhador, tocador de carros de boi, que conseguiu transformar seu sonho em realidade. E que, hoje, apesar de seus 81 anos, ainda divide sua paixão por caminhões, pela marca e pela estrada. Haja paixão, haja fidelidade! Que sua vida, sua determinação, dedicação, perseverança e amor pela vida sirvam de inspiração a todos nós.
Parabéns pai, avô e bisavô Benjamin!"